
(Oceano Atlântico, costa do Brasil)
Amar é chover? Quem ama chove. Quanto à chuva, eu diria – e digo – que chuva é Amor. Se chuva é Amor, chover é amar? Quem chove? Alguém responderia – e responde – a chuva, uai. Em inglês, se diz “It rains”- it sendo terceira pessoa indefinida – enquanto no português temos o verbo, palavra-ação, agindo por si só. Chove. Chove chuva, alegrias, abundância, chove! Enche o copo-pessoa até transbordar gratidão. Escrevi o que segue durante uma excursão exploratória en route ao Nordeste
“Lua Nova
Ontem vi estrelas por entre nuvens que… penduradas na escuridão, esperavam amanhecer para se derramar de novo sobre as folhas e rios e passos e medos daqueles que também esperam o que sempre será. Apesar de tudo, tudo será, num pedacinho escuro de imensidão e infinitude. Ontem estrelas, poucas mas únicas, hoje o Sol, morno e constante, molhando a pele de cor e matando a sede de Vida e calor de todos os seres vivos. Estamos carne, espinhos, estórias, visão, memórias, paixão, o sim e o não de cada curva, trilha incerta e pedra no sapato. Sapato velho, de muitas jornadas, sapato desgastado de chão e poças fundas de água embaçada – a mesma água cristalina de chuva, chuva que é rio, rio que é mar, mar que é oceano, oceano que cobre terra, terra que é Terra, Terra que é mãe. Tudo sempre se renova. Tudo sempre será nova”
O mundo é movimento repleto destes reflexos. Há como se ver, todas as suas partes, por toda parte. Como água, fluimos, nutrimos e refletimos também; refletimos o que vemos e acerca do que vemos. Indo ao outro e voltando a si mesmo, acrescentando à idade, Profundidade.
Rios ao mar são apenas um exemplo das metáforas na natureza que nos ensina a todo instante a não nos admirarmos que deveras somos parte de tudo. Árvores vivem aí, pulmões do mundo como as algas, sementes corajosas ramificando em muitas direções, aprofundando raízes, exalando beleza, dando frutos, recomeçando. Pássaros se aventuram cair pra voar, abram asas, vão ao alto, esperam o vento, vão com ele, planam, voltam, pousam, cantando sempre livres sua música única, livres.
Como nós mesmos? Ou nós como tudo, o todo ao redor e aqui dentro, aqui – vivendo como esse… “Eu”, ou “o outro”? E et cetera. Tenho um amor que dizia, como o poeta Jellaludin Rumi, que falar do “outro” quando se fala de Amor é contradição. Rumi escreveu do amado e do amante como um só; um começa onde o outro termina – e vice-versa. Disse que amar é como ver mundo através de um rubi: tudo é a visão através do rubi, e vermelho.
Os rios, quando chegarem ao mar, conterão pedacinhos da terra dos lugares por onde passaram. Conterão as nuvens-água-de-rio que se refletiram do alto e derramaram sua própria substância de volta a si mesmos. Correrão ora rápidos ora tranqüilos para, por fim, se tornarem um só. Ao fim, não será o fim. É verdade que lá, não serão mais rios. Serão outro. Serão Mar. Mar feito de todos eles Todo dissolvendo identidades, idênticas idades individuais, integrando, sendo — ainda em movimento, ainda constante, ainda contendo, mas agora, ainda mais, agora mistério, agora profunda idade, mar.
Ir ao mar, ir amar, guiar; guiar ao mar.
Fim de tarde no Nordeste brasileiro, Fortaleza, Ceará. “Covarde! Fim às partes! Fortaleza! O que é seu, será.” Sentada na areia, completamente enamorada, muda, silêncio gritante de angústia sem palavras, deixei meus olhos sobrevoar a massa viva do mar. Pensei ao vivo, implorei por dentro, “Qual é a vossa lição????” Além da linha visível, movimentos invisíveis se faziam sentidos aqui. Sentidos e asas – parti com estes! seguindo e encontrando outros horizontes dentro de si mesmos. Em momentos de presença maciça por toda parte, de observação do Todo-partes, formulo perguntas acerca das lições a serem aprendidas. O que nos mostra o mundo? Ali, a maré constante convidou-me a desvendar seus mistérios. Qual é a vossa lição, vossa constante, sua constante lição, maré. O mar é. Que estórias tem pra contar? O q conta da História? Qual é A Lição? A maré levantou-se alta em fúria e me retirei. Muitos me haviam alertado do perigo para uma jovem moça só por ali àquelas horas. Só que eu não estava só. Para mim, o perigo real seria um dia seguinte – ainda – sem resposta, diante de um céu azul de tão aberto e uma folha branca de tanta possibilidade. Sempre as folhas brancas, o céu e pensamentos. Penso, logo minto? Há que SER Verdade. Não pensar mais. Nem menos. Ser. Fluir. Continuar. Persistir. Receber, entregar, se retirar e voltar e voltar e voltar. Voltei. Debaixo de meu corpo, grudada à toda superfície cutânea que a tocava escapando ligeira por entre os dedos voando com o vento formando dunas e desertos, a areia. Prova do tempo. Em Fortaleza. Fortaleza! É forte a Beleza. E Tudo será. Sssshhhh… Sssshhh… Sssshhh…. Vuuuuuuuuu…… Vuuuuuuuuuuu… Sssshhhhhhhh… Ssshhhhhhhh…. Sssshhhhh….
SEA (mar).. SEE (veja).. SEA.. SEE.. SEA
. . .
Ir ao mar, ir amar, guiar; guiar ao mar. Quem guia ao mar de sentidos, guia o amar.
I.